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Percorrendo a vida com uma bicicleta

Na história do designer gráfico Luiz Gustavo Villela, o ciclismo não é apenas um esporte ou meio de transporte. Ao longo dos seus quase 50 anos, a bicicleta se fez presente desde a infância, permeando suas mais diferentes memórias

Como explicar a paixão por um esporte? Ou por algo que pode ser tanto um lazer quanto uma ferramenta para o dia a dia? Para o ciclista Luiz Gustavo Villela, é simples: não se explica, apenas se vive.

“Meu ditado e conselho é: encontre o seu esporte. A hora que você encontrar, seja o que for, é uma paixão que não tem como mensurar ou questionar o porquê”, afirma, enquanto conta entusiasmado como a bicicleta fez e faz parte da sua vida.

E como faz! Atualmente, o designer gráfico, com especialização em marketing estratégico, por profissão e ciclista por amor pedala cerca de 250km todas as semanas. São quase 1.000km por mês! É como ir de Ribeirão Preto até Foz do Iguaçu (PR).

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Luiz Gustavo em treino por São Simão (SP) com a equipe da Multibike | Crédito: Arquivo pessoa

O que para muitos parece um auto imposto desafio, para ele é algo inato, com incontáveis benefícios. “A bike sempre foi algo natural na minha vida, uma escolha. Isso porque a experiência proporcionada é muito superior. Trago os ensinamentos que tive e tenho com ela para todos os aspectos da minha vida. O ciclismo é um esporte com técnicas que te exigem mais que 100% de atenção. E é esse foco, nesse nível, que dou para minha vida profissional, como pai, no convívio social… porque me traz um equilíbrio muito grande. Tudo isso é qualidade de vida”, destaca.

Sempre e de diferentes formas

Quando revela que a bicicleta sempre esteve na sua vida, é porque boas memórias da infância de Luiz Gustavo já estão relacionadas a ela. Paulistano, ele lembra quando seus pais o levavam ao parque Ibirapuera para pedalar e, durante aqueles momentos, ele até perdia a noção do tempo. “Ali eu peguei gosto por pedalar com frequência. Percebi logo que a bicicleta tinha muita afinidade com aquilo que eu gostava de fazer”.

Quando mudou para a Califórnia Brasileira, aos 11 anos, esse gosto não mudou, mas acabou se expandindo. Isso porque coincidiu com a maior presença no país das bicicletas de estilo cross e das competições na modalidade.

Adolescente, Luiz Gustavo treinava nas pistas da antiga fábrica da Brandani | Crédito: Arquivo pessoal

Começando por manobras improvisadas na pista de uma antiga fábrica de bikes da cidade, ao lado dos amigos, logo o ciclista se inseriu nas provas da modalidade, em diversos municípios da região.

“Eram estruturas simples, mas muito legais e de convivência. Formamos uma turma muito bacana. E, nessa onda, comecei a ganhar prova atrás de prova, participar de estaduais, até fui parar no brasileiro. Ganhei o campeonato estadual de São Paulo e o Brasileiro em 1986 e, no ano seguinte, fui vice-campeão do paulista e vice brasileiro”, lembra.

A vida acontece

Assim como a forma natural com que entrou na vida do designer gráfico, o ciclismo acabou afastado por um tempo enquanto esporte. O trabalho, a faculdade, o casamento e tudo que acontece no meio enquanto a vida se desenrola se sobrepuseram durante o período dos 20 anos de Luiz Gustavo. Mas a paixão se manteve ali, com ele. Tanto que sua mobilidade diária continuou sendo sob as duas rodas.

“Percebi que foi um movimento natural da minha vida, assim como na de outras pessoas que também gostam muito de pedalar. Primeiro aquele desejo fulminante na adolescência, depois os anos em que a vida vai tomando forma, até que, quando as coisas começam a se estabilizar, volta o desejo de ter aquilo, nem que seja como hobby”.

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O ciclista comemora a realização do Caminho da Fé | Crédito: Arquivo pessoal

E foi assim que, por volta dos seus 35 anos, ele se viu de novo sendo “puxado” para esse universo. Contudo, dessa vez, a atração se deu por meio das mountain bikes. Com uma aproximação tímida a princípio, foram mais três anos até o publicitário declarar sua volta definitiva ao esporte.

“Fui à Multibike ver uma nova bicicleta e conheci o Marcos Silveira, que me deixou impressionado. Ele me deu uma aula de ciclismo e sobre acessórios, e foi quando pensei ‘É incrível demais, não posso mais ficar longe disso. Aí voltei a andar com mais intensidade'”.

bicicleta_treinos | Crédito: Arquivo pessoal
Os treinos são parte do dia a dia do especialista em marketing estratégico | Crédito: Arquivo pessoal

Intensidade essa que define os 250km pedalados semanalmente citados no início da matéria. Eles são distribuídos em quatro treinos por semana (com cerca de 40km cada, em média) e passeios feitos “religiosamente” aos finais de semana, em turma, com 70km a 90km cada dia. Além, é claro, do uso da bicicleta no deslocamento diário.

Seu retorno ao ciclismo também se concretizou pelo fato de, hoje, ele fazer parte do time de ciclismo da Multibike, bem como está refletida nas cinco bicicletas que orgulhosamente possui: uma de moutain bike, uma de speed para treinos, uma no estilo urbano e duas Caloi, 10 e 12, com aproximadamente 40 anos.

Memórias de bicicleta

Conforme foi se reinserindo mais e mais nesse universo, Luiz Gustavo se deu conta que dava para ir ainda mais fundo e juntar essa paixão com outras duas muito grandes em sua vida: por viagens e por sua filha, Heloísa.

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Memória de um dos primeiros passeios ciclísticos ao lado da filha, Heloisa, em 2001 | Crédito: Arquivo pessoal

“Percebi que essa mobilidade que eu tinha com a bicicleta aqui também deveria me favorecer em situações que estipulei como propósito de vida, a exemplo das viagens que faço com a minha filha. Todo ano, viajamos juntos para algum lugar diferente. Sempre quis deixar para ela esse legado de viagens como forma de adquirir conhecimento. Então, propus que nossas viagens incluíssem as bikes e ela amou”.

Dessa forma, seja ao lado da filha, com amigos ou até sozinho, o especialista em marketing estratégico já viveu muitas aventuras sob duas rodas em diferentes continentes. Chile, Argentina, Colômbia, Estados Unidos, Itália e Alemanha – sem falar das inúmeras paisagens brasileiras – são alguns dos destinos por onde passam suas lembranças.

“Em uma ocasião especial, fui para o Peru e fiquei na região de Arequipa. Lá, havia um circuito de mountain bike descendo um vulcão. Claro que lá fui eu fazer o circuito de 100km. Depois fui para Lima, onde também fiquei rodando nos principais bairros de bicicleta. Enquanto estive na Itália, fazendo um curso de especialização, toda minha logística foi feita de bike. Mesma coisa quando fiquei em Nova York. Nem taxi eu pegava”, recorda.

Em solo brasileiro, ele destaca a experiência que viveu no Pará, próximo ao Rio Tapajós, onde esteve a convite de um amigo e fez uma descoberta que até hoje ele faz questão de contar sempre que pode.

“O que mais me impressionou e digo isso para todo mundo é que lá, entre Alter do Chão e Santarém, você encontra uma ciclofaixa com 40km. Nunca vi nenhuma ciclofaixa desse tamanho no Brasil, apenas na Europa”, avalia. Roteiros como da Estrada Real, o Caminho de Aparecida e a Ruta 40 na Argentina foram maratonas que ele também já percorreu, com trejetos entre 400km e 500km.

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Circuito e passeio entre Alter do Chão e Santarém, na companhia da namorada Michelle | Crédito: arquivo pessoal

Aventuras enriquecedoras

Hoje, considerando-se um ativista por condições que permitam a melhor integração da bicicleta no sistema de mobilidade urbana, Luiz Gustavo compartilha que pretende ainda ter muitas experiências como ciclista, especialmente como a que viveu ao fazer o Caminho da Fé, entre Águas da Prata (SP) e Aparecida do Norte (SP), com um total de 310km.

Em Bariloche, o designer gráfico usou as bikes tanto na cidade quanto nos passeios | Crédito: Arquivo pessoal

“Procuro todo ano fazer uma viagem diferente, marcante por algum motivo especial. E acredito que um dos roteiros mais desafiadores que já fiz é o Caminho da fé. Um dos fatores que torna essa viagem tão desafiadora é a altitude. É preciso treinar muita subida. Acumulado, você acaba subindo 8.000m. Mas é muito gratificante. É um caminho muito místico”.

Destacando que anseia por aventuras que o enriqueçam, o ciclista revela que já conta os dias para sua próxima jornada, que, infelizmente, ainda só não aconteceu devido à pandemia.

“A bicicleta é algo que levarei para o resto da vida. No momento, meu desejo maior, que eu cumpriria em 2020, em comemoração aos meus 50 anos, é o Caminho de Santiago de Compostela. Passei boa parte do ano passado me programando, estudando, chamando gente… infelizmente precisei adiar, mas, se tudo der certo, ano que vem eu faço”, anseia.

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Luiz Gustavo comemora vitória em prova de 2019 | Crédito: Arquivo pessoal

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