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Médico aposta em organização e carinho para melhorar sistema de saúde

Desde que assumiu a direção técnica da Fundação Hospital Santa Lydia, em Ribeirão Preto, Walther Oliveira de Campos Filho vem mudando a cultura organizacional assistencial e organizacional investindo fundamentalmente na humanização

Em meio a uma pandemia que se estende há meses, não é raro vermos notícias relacionadas a hospitais e ao sistema de saúde como um todo. O que é incomum é a informação ser motivada por algo positivo. Mas o Hospital Santa Lydia, em Ribeirão Preto, foi um dos que fugiram à regra, ao aparecer na mídia devido ao tratamento humanizado que vem desenvolvendo com os pacientes de Covid-19. (Assista à reportagem aqui).

Reconhecendo a solidão que esse difícil momento pode representar, equipes de médicos, fisioterapeutas, enfermeiras, técnicos de enfermagem, psicólogas e nutricionistas praticam diferentes ações de carinho, visando fortalecer o ânimo de quem enfrenta a doença, enquanto o hospital coleciona elogios de sua atuação nesse período. Desde março, houve mudança na estrutura de suas enfermarias para que os atendimentos fossem exclusivamente para cuidados da Covid-19 em pacientes adultos.

sistema-de-saude | Crédito: arquivo pessoal
Treinamento de intubação para pacientes com Covid-19 | Crédito: arquivo pessoal

Ver o hospital envolvido em tão boas notícias também pode surpreender muita gente, visto que, até 2017, ele vivia grandes dificuldades, inclusive culminando em uma intervenção judicial. Então, como pode a situação ter mudado tanto?

Organização, previsão e humanização. De acordo com o Walter Oliveira de Campos Filho (CRM 67242), médico que vem atuando como diretor técnico responsável pela Fundação, são esses os fatores que estão permitindo uma completa mudança na cultura organizacional do hospital e das unidades de saúde associadas a ele.

“Lidamos e cuidamos de quem tem menos e precisa mais. Nosso serviço é o momento sublime de eles receberem cuidados. Com esse cuidado, conquistamos o resto, inclusive desafios financeiros”, garante.

Na linha de frente

Ao lado do Marcelo César Carboneri, diretor administrativo e superintendente da mesma Fundação, Walther assumiu a atual função em janeiro de 2018, com a missão de garantir a melhoria no funcionamento geral do Hospital, bem como das outras unidades da Fundação. Seu primeiro passo para atingir o objetivo foi justamente apostar na humanização dos atendimentos.

“Assim que cheguei ao hospital, reuni os colaboradores para mostrar-lhes a importância da função de cada um e como eles trariam mais esperança de vida para cada pessoa ou família que ali estavam e contavam conosco. Então, fui conhecendo melhor as pessoas com quem trabalhava, escolhendo uma equipe de coordenadores que fosse meu braço direito. Com isso, noto que a assistência e a organização melhoram a cada dia”, relata Walther.

Dr. Walther Oliveira de Campos Junior | Crédito: Arquivo pessoal
Dr. Walther Oliveira de Campos Junior | Crédito: Arquivo pessoal

Formado em Medicina pela Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), onde também completou sua residência médica em Cirurgia, atua em Ribeirão Preto na especialidade de Cirurgia do Aparelho Digestivo. Trabalhou como médico adido na Unidade de Emergência do HC, como médico assistente na UTI HC Campus e como cirurgião da Equipe Integrada de Transplante de Fígado do Hospital das Clínicas (HC). Ali, realizou também Mestrado e Doutorado pela USP. Atuou ainda como professor em duas universidades médicas particulares de Ribeirão Preto.

Participou ainda de várias edições do Voluntários do Sertão, no qual conseguiu elaborar e organizar o funcionamento de um centro cirúrgico. “Quando entrei para o projeto, eram feitos apenas procedimentos simples com anestesia local. Inconformado, me entendi com o idealizador e realizador do Voluntários e investimos na elaboração de um centro cirúrgico nas cidades onde acontecia o projeto. Nunca esquecendo de manter e aumentar a realização daqueles pequenos procedimentos. Quando precisei me ausentar do projeto, contávamos com centro cirúrgico, anestesistas e fazíamos até 21 cirurgias por dia sob raquianestesia”, lembra.

Sua crença nas pessoas, fossem elas profissionais ou pacientes e que sempre guiou sua carreira foi o que o motivou a aceitar o convite feito por Sandro Scarpelini, atual secretário municipal de saúde, para que ele dirigisse a parte médica da Fundação Santa Lydia.

Revolução no Santa Lydia

Sendo assim, mudar as estruturas do Hospital Santa Lydia e das unidades associadas não foi a primeira revolução proposta por Walther, cujo principal trabalho foi iniciar a organização dos fluxos de assistência, especialmente dos processos de trabalho de todos os setores.

Atualmente, já deu início ao projeto de unificar todos os protocolos de atendimento nas unidades da Fundação. “A ideia é que, em situações de urgência ou mesmo de atendimento não-emergencial, em qualquer das unidades e por qualquer profissional, a abordagem, a conduta e o tratamento ocorrerão da mesma forma, seguindo sempre um protocolo único e melhorando substancialmente a assistência em toda a Fundação”, explica.

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A Fundação vem realizando treinamentos constantes com os colaboradores | Crédito: arquivo pessoal

Junto a isso, foram ampliados os serviços de apoio, essenciais para o bem-estar do paciente – psicologia, fisioterapia, nutrição. “Além da parte médica e de enfermagem, precisamos qualificar o pessoal. Então, demos novas orientações, fizemos treinamentos e estamos já programando capacitação a todo colaborador que queira participar. Temos que usar ao máximo o potencial das pessoas. Muita gente altamente capaz está sendo subutilizada por falta de oportunidade. Não posso permitir que colaboradores não melhorem profissionalmente por falta de oportunidade. O desafio é promover a chance de aprender mais”, defende.

A Fundação Hospital Santa Lydia, quando Walther e Marcelo ocuparam seus respectivos cargos, contava apenas com o Hospital de mesmo nome. Logo nos primeiros meses, já houve a incorporação das unidades de urgência e emergência e, em seguida, de novas unidades não-emergenciais.

Hoje, a Fundação conta com o Hospital Santa Lydia, a UPA da 13 de Maio, a UPA Norte (Quintino II), a UBDS Central, a Unidade de Atendimento Básico do Cristo Redentor e o Hospital Municipal Francisco de Assis. Ela conta com, aproximadamente, 1.200 colaboradores e cerca de 300 médicos.

Chamando reforços

Colocar uma Fundação de tal tamanho e importância “em ordem” não é tarefa fácil. Contudo, pode ser menos difícil quando existe a ajuda de pessoas e parceiros certos.

Assim, vieram as parcerias com escolas técnicas e universidades. “Essa ideia surgiu da observação que Ribeirão Preto é uma cidade universitária. Isso me fez questionar sobre a formação e o campo profissional dos estudantes. Notei que são muitos cursos e campos de estágio buscando possibilidades de aprendizagem. Com as parcerias, penso que também colaboramos com essas instituições para complementar a formação de seus alunos”.

Foi assim que a Fundação Santa Lydia expandiu vagas, em diferentes setores, para alunos da das diversas escolas e faculdades, em áreas afins, como enfermagem, fisioterapia, medicina e psicologia.

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Técnicos de enfermagem atuando no estágio | Crédito: arquivo pessoal

“Converso constantemente com os alunos, para entender as dificuldades que encontram e, assim, tentar solucioná-las. Dessa forma, buscamos formar colaboradores mais engajados, com vontade de trabalhar e com maior capacitação. Só com avaliações constantes podemos entender a efetividade de nossas parcerias. Oferecemos a chance de uma formação mais completa, mas precisamos de resultado”, afirma o diretor.

Com as parcerias, está sendo possível alavancar a qualidade dos atendimentos da Fundação, por meio de diferentes ações. “No fim do ano passado, adquirimos vários equipamentos de última tecnologia, utilizados nas áreas mais críticas da assistência. Felizmente, eles chegaram antes no início da pandemia. Com isso, sofremos muito menos. Também conseguimos estabelecer, com apoio das universidades, a formação de Núcleos de Acolhimento e Saúde para os Colaboradores. Seu objetivo é oferecer apoio e acompanhamento, tanto psicológico quanto fisioterápico, para quem trabalha na Fundação e suas famílias. São duas áreas importantes para cuidar de quem nos ajuda. E tudo gratuitamente”, cita Walther, orgulhoso.

Mas sua ideia para a parceria vai mais além. Sua meta – ou sonho, como ele mesmo diz é aproveitar o potencial para transformar o Hospital em um “Hospital Docente-Assistencial”.

“Esse processo melhora a capacitação de todos ao mesmo tempo, por conta de exigências tanto na assistência, quanto no ensino e na pesquisa. O projeto já está até desenhado, mas há a necessidade de autorização. Nosso ânimo é que sempre tivemos todo apoio de nossos gestores, que nos estimulou a crescer por meio de desafios. Gostamos é dessa forma”, comenta.

O futuro pós-Covid

Infelizmente, a pandemia representou um certo freio nos planos e desenvolvimento de Walther, uma vez que quase toda a atenção precisou ser focada no Covid-19. “O Polo Covid, montado na UPA pela Secretaria da Saúde, foi muito importante para toda a cidade, acolhendo elevadíssima quantidade diária de pacientes. Foi então que o Hospital Santa Lydia ficou por conta exclusivamente do tratamento da doença para pacientes adultos”, explica o médico.

Segundo ele, foi construído, juntamente com coordenadores e a Comissão de Controle Infecção Hospitalar, um fluxo muito seguro e responsável para o atendimento de casos de coronavírus, seja em fase de avaliação ou para tratamento.

“Existe segurança para circulação de pessoas em todos os setores do hospital. As áreas ficam isoladas umas das outras, os profissionais estão totalmente equipados com EPIs. Tudo está 100% dentro dos protocolos de segurança em todas as alas da Instituição”, garante.

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Treinamento para atendimento de pacientes com Covid-19 | Crédito: arquivo pessoal

Mesmo assim, o trabalho começado há quase três anos continua. Inclusive, para Walther, cuidar da Fundação exige atuação diária, contínua e envolvimento incessante.

“Faço questão de deixar registrado meu agradecimento a todo mundo que trabalha comigo, porque sempre que precisei, recebi ajuda e ajuda de verdade. Caberia, inclusive, citar muitos nomes de grandes colaboradores que também são responsáveis por todo esse trabalho. Mas não poço deixar de registrar o Dr. Luciano Fiori, nas unidades de urgência; Silmara Miamoto, na enfermagem, e Luiz Eugênio Scarpino, no Jurídico. E seus colaboradores diretos, é claro! Esse é o maior legado que espero deixar [à Fundação]. Os equipamentos envelhecem. Mas se eu conseguir que o espírito de trabalho que estamos tentando implantar desde o primeiro dia continue, se o espirito de humanização permanecer, já valeu a pena”.

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